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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A Leitura como Processo de Transformação Humana.




                                                                                                                                             Foto: Arquivo pessoal
 


“A mente necessita ser alimentada continuamente. Assim como as plantas precisam do Sol, a transformação humana carece da fotossíntese advinda dos livros.”

A reflexão proposta, insere-se em uma tradição filosófica que compreende o conhecimento não como acúmulo de dados, mas como formação do ser.

Quando se afirma que a mente precisa ser alimentada continuamente, ecoa-se uma ideia antiga. Aristóteles já defendia que o ser humano realiza sua natureza por meio do exercício constante da razão. Pensar não é ato ocasional; é prática. Da mesma forma, a mente não amadurece por estímulos isolados, mas por contato regular com aquilo que amplia sua compreensão do mundo.

A metáfora da fotossíntese reforça essa compreensão. A planta não apenas recebe luz: ela transforma luz em energia vital. O mesmo raciocínio pode ser encontrado em Paulo Freire, para quem a leitura não é simples decodificação de palavras, mas “leitura do mundo”. Ler é transformar informação em consciência crítica. Não se trata de repetir ideias, mas de recriá-las interiormente.

Também em Francis Bacon encontramos um pensamento convergente: “O conhecimento é poder”. Contudo, esse poder não nasce da informação bruta, mas da capacidade de organizá-la e aplicá-la. Assim como a fotossíntese converte luz em vida, a leitura converte conhecimento em autonomia intelectual.

Ao utilizar o verbo “carecer”, a afirmação destaca que a transformação humana depende desse processo. Não basta estar exposto à informação. É preciso assimilá-la. Em uma época marcada pela velocidade e pela superficialidade, a leitura atenta torna-se um ato de resistência e de profundidade.

Immanuel Kant afirmava que o esclarecimento consiste na saída do homem de sua menoridade intelectual. Essa saída exige esforço próprio — exige leitura, reflexão e coragem para pensar por conta própria. A fotossíntese intelectual, portanto, não acontece automaticamente; ela depende da disposição do leitor.

A metáfora descrita não defende apenas o hábito da leitura. Ela afirma que a formação humana é um processo ativo. Assim como a vida vegetal depende da luz para crescer, o espírito humano depende do contato constante com o pensamento estruturado para amadurecer.

Sem leitura, há acúmulo.
Com leitura, há transformação.

Por Moisés Calado.

Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.

BACON, Francis. Novum Organum.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1989.

KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: Que é o Esclarecimento? 

quarta-feira, 6 de julho de 2022

SANTO ANSELMO, DOUTOR DA IGREJA: A FILOSOFIA NA IGREJA CATÓLICA

 

Imagem: ACI Digital


Santo Anselmo, nascido em Aosta, na Burgandia, no ano 1033, foi uma criança religiosa e buscou ingresso na vida monástica aos 15 anos. O abade local, entretanto, o recusou apesar da insistência de seu pai. Após a morte da sua mãe, Anselmo partiu em viagem. Finalmente ele chegou à Abadia de Bec e começou a estudar com o renomado Prior Lanfranc. Ordenou-se em 1060. Três anos mais tarde, quando Lanfranc foi indicado para ser Abade em Caen, o jovem Anselmo o sucedeu como Prior para o pesar dos mais velhos e estabelecidos candidatos ao posto. Durante os próximos trinta anos ele escreveu os seus trabalhos filosóficos e teológicos e foi indicado a Abade de Bec.


Imagem da Abadia de Bec, onde Santo Anselmo Trabalhou. Wikipedia


Hoje relembrado como o pai da tradição Escolástica e Arcebispo de Canterbury de 1093 até a sua morte, Anselmo é de interesse filosófico principalmente por causa da lógica dos seus argumentos em dois de seus principais trabalhos, O Monologion (“Solilóquio”) e o Proslogion (Discurso), os quais suscitaram várias discussões que pretendiam provar a existência de Deus. Por volta do século XII, os trabalhos de Platão e Aristóteles tinham sido redescobertos e reinterpretados pelos escolásticos, que tentaram sintetizar as ideias dos antigos gregos com a teologia medieval. Seguindo a tradição grega, diz-se que os alunos de Anselmo tiveram a preocupação de ouvir uma justificativa racional para a existência de Deus que não se baseasse meramente na aceitação dos ensinamentos das escrituras ou doutrinários. A resposta mais famosa de Anselmo para este desafio foi conhecida como “a discussão ontológica para a existência de Deus” a qual alguns consideram o debate mais acalorado na história da filosofia.

 

"DEUS EXISTE PORQUE O

CONCEITO DE DEUS EXISTE"

 

Anselmo nos leva a considerar que, ao dizermos o termo “Deus” significa que não se pode pensar em nada maior do que isto. Sendo assim, até mesmo o incrédulo ou, como Anselmo diz, o “tolo”, aceita que isto é o que o conceito de Deus abrange, a existência de Deus pareceria vir necessariamente da definição. Por causa disto, seria uma contradição supor que Deus, por um lado, seja algo que não se pode pensar em nada maior do que Ele e por outro lado não vir a existir. O pensamento de que Deus não exista é menos importante do que o pensamento de que Ele exista, e desde que se possa claramente pensar em Deus e supor que Ele exista, então pensar em algo que não possa ser maior do que isto já admite sua existência.

A discussão ontológica de Anselmo é engenhosa em sua simplicidade. Em enquanto muitas pessoas concordam que há alguma coisa duvidosa sobre isto, a opinião tem sido dividida sobre qual o problema da discussão. O primeiro crítico de Anselmo foi um monge contemporâneo beneditino chamado Gaulino de Marmoutiers. Gaulino argumentava que se o raciocínio de Anselmo estivesse correto, então se podia imaginar uma ilha perdida que fosse a mais perfeita ilha. Desde que por definição a ilha seja a mais perfeita ela tem que existir, pois pelo raciocínio de Anselmo seria menos do que perfeita se não existisse. Assim, pleiteou Gaulino, o raciocínio de Anselmo permite a existência de toda sorte de objetos imaginários sendo assim imperfeitos. Em resposta, Anselmo alegou que a qualidade da perfeição é um atributo que se aplica somente a Deus, e consequentemente sua discussão ontológica, não poderia ser usada para provar a existência de ilhas imaginárias ou o que quer que fosse.

 

"A QUALIDADE DA PERFEIÇÃO É UM

 ATRIBUTO QUE SE APLICA SOMENTE A DEUS"

 

Versões dos argumentos ontológicos de Anselmo foram mais tarde usadas por São Thomás de Aquino e René Descartes e foram, mais tarde ainda, duramente criticadas por Immanuel Kant. O princípio da ressalva de Kant era de que o conceito de Deus como um ser perfeito não necessariamente implica na existência de Deus, na medida em que a “existência” não é uma perfeição. O conceito de um ser perfeito existente não é maior ou menor que o conceito de um ser perfeito não existente. Filósofos concordam que o problema com a discussão de Anselmo gira em torno do fato de que nós certamente não podemos averiguar se alguma coisa existe ou não meramente por analisar o significado de uma palavra ou conceito. Porém, qual erro lógico tem sido cometido ao tentar proceder dessa forma, tem sido exatamente a causa de tantas discussões entre filósofos e especialistas em lógica.

O debate foi retomado novamente em épocas mais recentes, nos anos 60, quando o filósofo Norman Malcom reviveu uma variante menos conhecida do argumento de Anselmo, a qual deixa de lado as objeções feitas por Kant e outros. De acordo com Malcom, Anselmo argumentou no Proslogion que se é possível a existência de tal ser, então ele tem que existir, pois seria uma contradição dizer que tal ser não exista. Deus somente poderia deixar de existir se o conceito de Deus fosse em si contraditório ou sem sentido, e isto, declara Malcom, permanece para ser mostrado pelos oponentes do argumento ontológico.

Santo Anselmo escreveu muitos livros religiosos, incluindo “Cur Deus Homo” (“Por que Deus se tornou Homem?”), mas atualmente ele é mais conhecido pelos seus dois trabalhos filosóficos: “Monologion” e “Proslogion”, nos quais ele tenta provar a existência de Deus.


Livro ontológico “Monologion” de 1076: O conceito de bondade não seria possível se não houvesse um padrão absoluto, algum ideal de bondade, do qual todas as outras “bondades” fossem um reflexo. Este ideal de bondade é Deus.



Crédito da imagem: Estante Virtual.



Livro “Proslogion” de 1077 a 1078: Se nós podemos conceber a ideia de perfeição, mas existente apenas em nossas mentes, então essa ideia é menos perfeita. Porém, se podemos conceber a ideia de perfeição ⸺ então perfeição, ou Deus, tem que existir.



 Crédito da imagem: editora Concreta. Amazon.




Análise e visão do livro de Philip Stokes: “Filosofia ⸺ Os Grandes pensadores”.


Por Moisés Calado.  

 

 

 

 

 

 

 

 

A Leitura como Processo de Transformação Humana.

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